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Sobre o balcão da minha cozinha repousa um daqueles porta-facas americanos, com as lâminas de diferentes tamanhos embainhadas num suporte de madeira. Puxei uma delas, de gume serrilhado, e passei lentamente pelo meu pulso esquerdo. Foi como se a minha mão fosse uma planta carnívora e eu tivesse que serrá-la. Era ela ou eu. Nada de fazer prisioneiros. Era uma mão lutando contra a outra. Senti apenas uma sucessão de picadas, e o sangue brotou em minúsculos globos, delineando um bracelete vermelho no meu punho e escorrendo para o cotovelo, onde ficou pingando como uma goteira antiga. As gotas de sangue pareciam sementes de romã. Mudei a faca de mão e fiz o mesmo com o outro pulso, encantado com a ausência de dor. Escorreguei numa pocinha vermelha e bati com a cabeça no armário. Devo ter-me arrastado e rastejado. Depois, resvalei para a pequena morte diária que é o sono. Acordei tarde e abri uma fresta dos olhos, com o sol a incidir-me na cara, mais vivo que morto. Na parede do quarto, avistei marcas da minha mão impressas em vermelho acastanhado, como gravuras rupestres. Crostas tinham coagulado nos cortes. Quando a empregada chegou, perguntou-me o que era aquilo.
- Foi ao arrumar as rosas no vaso. Os espinhos. Só um arranhão.
- Quais rosas? Qual vaso?
Fingi que não ouvi, e sai de casa de mansinho. Na nossa sociedade, as pessoas têm medo dos suicidas. A nossa sociedade prefere matar que morrer. Deve ser por isso que nos telejornais portugueses, ninguém morre. Toda a gente “desaparece” ou, na pior das hipóteses, “falece”. Ora, que diabo, morrer é uma coisa que acontece nas melhores famílias. |ROCKANDSODA





